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“Ei, ‘fulano’, vai tomar no c*!” – Sobre a (falta de) civilidade brasileira

É inquietante o fato de que, ainda hoje, pessoas preguem a tal da benevolência para com o outro, a manifestação pacífica e ainda assim, com os ânimos aflorados com as derrotas, entregam-se à animosidade em sua mais pura e descabida forma.
Na última terça-feira (8), estive à frente da TV assistindo ao jogo do Brasil e Alemanha quando, para além da goleada da Seleção Alemã, fui surpreendido pelo coro em uníssono “Ei, Fred, vai tomar no c*!”

Parei e pensei em N coisas naquele momento a respeito disso. Especificamente disso.
Não bastasse a moral em baixa do time brasileiro, as vaias ao empenho (houve empenho, não houve?) dos jogadores para tentar reverter a situação, ainda há uma sobrecarga extremamente desmoralizante e prejudicial a um jogador específico, o qual fora tachado de inerte, “não-Fred-nem-cheira” e coisas afins.
Não, não nego que também fiz piadas do gênero direcionadas a este jogador especificamente, mas não gostaria de presenciar, dentro de casa, uma ofensa tão direta da minha própria nação por pior que fosse o meu desempenho em campo…
Foi grotesco. Bizarro. Incoerente com o que se tem pregado sobre respeito e espírito esportivo. Uma aula de incivilidade. Afinal, com o perdão da adaptação do ditado, “pimenta no c* dos outros é sempre um refresco!”
Vejamos…
Esta mesma força motriz que impulsionou a torcida brasileira (presente no estádio, uma massa pequena e possivelmente elitista, mas certamente mal-educada) foi a responsável pela vaia à presidente Dilma Rousseff lá no começo da Copa. Para os torcedores presentes na abertura do grande evento mundial de futebol, a representante da nação também deveria ser vaiada pelo seu desempenho no campo onde joga. Seu governo, tomado como insatisfatório, seria a causa da expressão entoada pela multidão dentro do estádio: “Ei, Dilma, vai tomar no c*!”.
Ora…
Talvez tenha virado moda e eu não fiquei sabendo.

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Depositemos, pois, nossas angústias e extravasemos nossas insatisfações “entaladas na garganta”, afinal não dá pra engolir um evento bilionário, a má gestão do dinheiro público, estádios que “nada legarão” para a nação brasileira e tantos “políticos corruptos” (ah, a verborragia…) e um país que se volta somente para o futebol e se esquece dos outros problemas sociais, não é verdade?
Para isto, como uma válvula de escape altamente consciente e eficaz, falemos mal de todas as formas tudo o que for nacional, porque, claro, nosso espírito de país colonizado ainda nos abraça de forma avassaladora e veneramos o “PEE” (produto externo enlatado). Não é preciso ser nenhum especialista na área para perceber que, sim, ainda há uma visão marcante de um Brasil como país de “oitavo mundo”, atrasado, de que “nada vai pra frente neste país” e que tudo é levado na malandragem. Pergunto-me o porquê desta imagem se perpetuar se muito já foi desmistificado e avanços significativos já foram e estão sendo realizados. Parte dos brasileiros parece carregar, em seu peito, a máxima de que a grama do vizinho é sempre mais verde.
O que falar de um país que incorpora anglicismos em sua língua falada e até mesmo escrita? O país onde se pode pedir um hot-dog com catchup, onde pessoas usam piercing, vão a shows
Isso seria uma perda da identidade nacional? Desvalorização do que é “da terra”?
A tal da pluralidade das etnias, a mistura que contagia logo se contradiz quando, por exemplo, surgem questionamentos quanto ao fato de que a música oficial da Copa ter sido em inglês (e também em espanhol e português), quando a sede tem como idioma o Português… brasileiro. “Piada… O país-sede fala em português e a música é em inglês!”, disseram alguéns na internet, insatisfeitos com a suposta “desvalorização do produto musical nacional”. Estes, os mesmos, criticaram a Claudia Leitte pela participação na canção e também na abertura. Jennifer Lopez não: ela veio de fora e, seguindo a lógica, ela é perfeita. O tal cantor Pitbull só pode ser um louco, um desvairado que acha que no Brasil as pessoas ouvem músicas do gênero. Absurdo! Balela! Nunca ninguém foi pra “balada” e dançou/curtiu/farreou embalado por uma ou outra música… em inglês.
Surpreende-me que não tenham aproveitado a abertura para repetir a expressão de insatisfação preferida da torcida no estádio: “Ei, Pitbull, vai tomar no c*!”. Surgiria até a rima…

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Ainda, trago uma experiência pessoal, presenciada num dia de carnaval do já longínquo ano de 2008. A festa se deu em um espaço de shows numa cidade mais ao sul da Bahia (para onde retorno pra casa nas férias) e eu sequer tinha atingido a tal da maioridade. Dentre as atrações deste dia, estava o DJ de fama internacional Tiesto.
Confesso que estava lá apenas pela cortesia que me fora concedida e, claro, pelos amigos que também lá estiveram para curtir o carnaval. Além da, opa!, “contradição” de colocar um DJ em cima de um trio elétrico num carnaval baiano (não teria que ser só axé music num carnaval da Bahia?), o tal Tiesto tocou sua batida eletrônica por mais de 1h e meia, gerando uma intensa mobilização da massa inconformada presente no local, a qual, formada por pessoas de várias partes do país, entoavam repetidamente adivinha o quê?
Exatamente… “Ei, Tiesto, vai tomar no c*!”
Seria imprudente se eu dissesse que o evento contava com uma “classe elitista” a qual, insatisfeita em ver seu rico dinheiro “mal aplicado”, permitiu-se, com todo o direito, um comportamento rude e desrespeitoso com o trabalho do DJ.
(Nota: não foi uma atração surpresa. O nome do mesmo já constava na programação, bem como o possível tempo de duração da apresentação)
Seria, de igual maneira, imprudente se eu dissesse que a torcida que recheou os estádios vaiando a presidente e o jogador da Seleção, pertence, também, à tal “classe elitista” da população brasileira.
Seria torpe da minha parte, acusar somente a tal elite, tão achincalhada por quem aponta, no outro lado da balança, a má distribuição de renda no país (“burgueses de m*rda”, “a elite brasileira é podre, me enoja”, “elite fútil e arrogante”), sabendo que o problema da incivilidade transpassa os fatores econômicos. Seria, ainda, imprudente afirmar que “o brasileiro é assim e não tem jeito”, posto que, como é sabido, há muitos discordantes deste tipo de comportamento mimado de quem não gosta e mostra a língua, tal qual um adulto ciente dos seus deveres e direitos deve agir socialmente. Só “xingar muito no Twitter” não adiantou. As torcidas (e os foliões de 2008) realmente devem achar “uma p*ta falta de sacanagem” isso da mamãe (Brasil) não ser perfeita do jeitinho que se quer. É a birra, o esperneio, a manha, o choro aos berros sem derramar uma lágrima, tudo pra conseguir as coisas no grito. Enquanto a pimenta permanece ardendo no… bem… no olho do outro, o “direito à manifestação” é assegurado, não importando como ela será realizada e a quem ou a quê ofenda.
Mas nem tudo é tão ruim como parece. Há comportamentos piores.
Enquanto lesões de jogadores de outros países arrancavam risadas sádicas, parte da nação brasileira se banhava em comentários extremistas e impertinentes, xenófobos, desrespeitosos ao pretenso espírito esportivo que o evento poderia proporcionar. Bastou o “menino Neymar” sofrer uma lesão grave que logo encontraram mais um local para canalizar uma raiva descontrolada da insatisfação pessoal para com tudo. A vítima da vez foi o jogador colombiano Camilo Zuñiga, o qual ficará conhecido como “o cara que tirou o Neymar da Copa”. Mais do que um “Ei, Zuñiga, vai tomar no c*!”, ameaças de morte lhe foram encaminhadas através de redes sociais.

860208Os anti-Copa (ou anti-tudo) se deleitam com a derrota do Brasil, comprazendo-se na “certeza” de que a derrota foi merecida, afinal “o Brasil tem mais é que se f*der”, “o governo deveria investir mais em educação, mais saúde (…)” e não se preocupar apenas com futebol. Inclusive, o que é extremamente prudente situações como esta, demonstrações de maturidade e respeito puderam ser vistas por todo o Brasil: ônibus e bandeiras nacionais queimadas. Lindo gesto.
A reivindicação é válida somente quando não é feita para gerar Likes na publicação do Facebook, fenômeno este que parece ser a causa da síncope coletiva proporcionada pela era do “Curtir/Compartilhar”, pela era da Geração Hashtag (“se eu compartilhar, farei a minha parte, ainda que eu sequer entenda do que realmente se trata” #partiuprotesto, #partiuvaiarapresidenta).

Que ao cobrar por educação, haja também a preocupação em se tornar educador, em construir esta realidade almejada. E que o mesmo empenho em bradar por uma mudança seja depositado no empenho em respeitar, ajudar e a zelar pela saúde do próximo.

Acredito na “pluralidade singular” do país e na capacidade de agir civilizadamente independentemente dos fatores socioeconômicos. Um dia chegaremos lá.
Cada um poderia abraçar o tal espírito esportivo (coletividade, respeito…) e jogar fora o próprio lixo da intolerância acumulada tais quais os japoneses fizeram com o lixo que estava sob sua responsabilidade nos estádios, o que lhes valeria incontáveis troféus, não pelo gesto, mas pela lição ao mundo.

No fim das contas, ninguém precisa ir tomar em lugar nenhum. É necessário menos pessoas com os dedos sujos apontando os erros dos outros, tomando consciência de si e da importância dos deveres de cada cidadão e não somente dos “direitos-nunca-atendidos-pelo-governo-culpado-por-todas-as-mazelas-sociais”.

Uma overdose de empatia, por favor.
E que “limpemos os dedos” antes de apontá-los para os outros…

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